domingo, 4 de setembro de 2011

HISTÓRIA DO RIO GRANDE DO SUL

O GAÚCHO HISTÓRICO

Se nós os gaúchos jogamos fora os nossos
mitos, que é que sobra? Floriano olha para o
estancieiro e diz tranqüilamente: --sobra o Rio
Grande, doutor. O Rio Grande sem máscaras. O
Rio Grande sem belas mentiras.
(Érico Veríssimo, O Arquipélago).

O orgulho é um gigante cego e ignorante

que exige para si um mérito que não lhe é dev ido.


A "DESCOBERTA" E A INTEGRAÇÃO DO RIO GRANDE DO SUL


Durante os primeiros duzentos anos da História do Brasil o Rio Grande do Sul foi desconsiderado e esquecido quase que completamente pelos colonizadores portugueses, sem oferecer algo que pudesse ser explorado economicamente esta região foi deixada de lado e permaneceu inexplorada por muito tempo. Enquanto o restante do Brasil iniciava o seu processo de colonização com o ciclo econômico da cana-de-açúcar, o sul permanecia desocupado.
No início do século XVII, com a intenção de garantir a posse do território, a coroa espanhola determinou a ocupação do extremo sul da América pelos jesuítas. Os jesuítas eram padres que tinham como objetivo tornarem os índios cristãos, para isso eles construíam cidades que eram chamadas de reduções ou missões, onde os índios deveriam viver como europeus, respeitando horários e costumes europeus. A cristianização dos índios se dava através da catequese, da educação elementar (letras e matemática) e da atividade de artesanato. Foram os jesuítas os responsáveis por introduzir os rebanhos bovinos, caprino, ovino e cavalar. Com o tempo estes animais, principalmente o gado e as mulas, passaram a se tornar os principais produtos da economia do Rio Grande do Sul.
Por volta da metade do século XVII, começou a penetração dos bandeirantes paulistas em direção a região sul, até que por fim os jesuítas foram expulsos do extremo sul do Brasil e se retiraram para o lado espanhol deixando para trás o gado que começou a se reproduzir de forma selvagem. Mesmo com o crescimento do rebanho de gado o rio Grande do Sul permanecia como terra-de-ninguém, os únicos a freqüentarem eventualmente a região eram os bandeirantes paulistas que desembarcavam em Laguna e seguiam até a região mais ao sul para abater o gado selvagem e retirar couro e sebo.
Com o passar do tempo a disputa pelo domínio da região do Rio da Prata, entre Portugal e Espanha, foi um dos principais estímulos para a ocupação do Rio Grande do Sul. Com a descoberta de ouro em Minas Gerais em 1693, o Rio grande do Sul tornou-se economicamente importante para a coroa portuguesa o que colaborou com a efetiva colonização da região. O ciclo econômico da mineração possibilitou um grande crescimento populacional no Brasil, em pouco mais de cem anos a população cresceu de 300 mil para 3 milhões, esse crescimento populacional impulsionou o surgimento de um mercado consumidor, o chamado mercado interno. Era preciso alimentar essa população que crescia cada vez mais, assim o Rio Grande do Sul passou a fornecer charque, cavalos e mulas para a região de Minas, assumindo uma posição econômica importante a passando a ser colonizado e integrado ao restante do país.

A FORMAÇÃO DO GAÚCHO HISTÓRICO


Por ser uma zona de fronteira na qual a guerra e a disputa pelo controle da região foram as suas principais marcas o Rio Grande do Sul se caracterizou por ser uma “terra-de-ninguém”. As freqüentes guerras entre Espanha e Portugal pelo controle da região possibilitaram o surgimento de um tipo social denominado de gaúcho ou gaudério. A origem do gaúcho ou gaudério esta relacionada ao estupro das índias charruas, minuanas e iarós, prática corriqueiras entre bandeirantes e soldados. Esses mestiços, marginalizados pela população local, herdaram dos índios a habilidade no trato com o gado e a capacidade para montar. A denominação de gaúcho ou gaudério já definia o lugar deste grupo na sociedade da época



“Gauches, palavra Hespanhola uzada neste Paiz para expressar aos Vagabundos, ou ladroens do campo, quais vaqueiros, costumados a matar os Touros chimarroens, a sacar-lhes os couros, e a leva-los ocultamente as Povoaçoens, para sua venda ou troca por outros gêneros”

A presença deste grupo social foi largamente identificada por historiadores e viajantes



“Historicamente o primeiro registro do tipo é em Santa Fé, em 1617, quando mozos perdidos, vestidos à semelhança dos charruas, com botas de garrão de potro, chiripá e poncho, assaltavam as estâncias. As cartas dos jesuítas registram que em 1686 surgiram os vagos ou vagabundos pilhando as estâncias missioneiras. Em 1700 aparecem com o nome de changadores na Vacaria do Mar, e como vagabundos e changadores pero de Montevidéu, 1705.”

Durante todo o período colonial o gaúcho foi retratado de forma pejorativa e tratado como uma ameaça a vida social do período “sem chefes, sem leis, sem polícia, os gaúchos não têm da moral senão idéias vulgares” . Segue as descrições sobre esse tipo social


“Além do dito povo, há naquela região [...] uma outra classe de gente, mui apropriadamente chamados de gaúchos ou gaudérios. [...] Sua nudez, suas barbas crescidas, seu cabelo sempre despenteado, sua sujeira e a brutalidade de sua aparência os tornam horríveis de ver. Por nenhum motivo ou interesse querem eles trabalhar para alguém, e além de serem ladrões, também raptam. A essas levam para os ambos e vivem com elas em choças, abatendo gado selvagem para seu sustento.”

Esses nômades dos pampas parecem ter criado uma imagem de miserável entre os visitantes


“Esses homens não deixam de espantar a quem não esteja habituados a vê-los. Estão sempre sujos; suas barbas sempre por fazer; andam descalços, e mesmo sem calças sob a completa cobertura do poncho. Por seus costumes, maneiras e roupas, conhecem-se os seus hábitos, sem sensibilidade e muitas fezes sem religião. Eles são chamados gaúchos, camiluchos ou gaudérios [...]. Trabalham apenas para adquirir o tabaco que fumam e a erva mate paraguaia que tomam em regra sem açúcar e tantas por dia quanto é possível.”

Assim o gaúcho histórico foi, enquanto existiu, tratado como um marginal, um paria que não se ajustava a vida em sociedade, um miserável e desempregado que deveria ser excluído. A única utilidade deste gaúcho marginal era servir nas guerras. Este termo gaúcho que identificava o marginal era renegado pela população do Rio Grande do Sul, até o final do século XIX o natural do Rio Grande do Sul se auto denominava de continentino ou rio-grandense. Com a privatização e o cercamento das terras no sul e a apropriação do gado selvagens pelos latifundiários o gaúcho histórico deixou de existir passando a ser incorporado como peão nas estâncias. Nos anos 60 do século XX, jovens interioranos que estudavam em Porto Alegre recriaram miticamente esse que conhecemos hoje, o gaúcho de bombacha ou o gaúcho do CTG que historicamente nunca existiu.

2 comentários:

  1. Barbaridade, Tchê, Gostei muito do teu artigo! Estou em preparos para declamar uma Payada de Jayme Caetano Braun e tenho que me recordar da História do Rio Grande do Sul, para tentar explicar os termos que Jayme utilizou para expressar os seus versos. Grato pela oportunidade.

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  2. Que interessante! Gostei de saber um pouco mais sobre a história do RS. Moro a muito tempo longe do meu Rio Grande, minha terra querida e fico sempre procurando coisas de lá.

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